18/04/2011

09/04/2011

Porta



Rouch + Morin = Chronique d'un été

10/03/2011

08/02/2011

ETC.

E lá vai a leitura de um trecho do Suíte Dama da Noite no Leituras Sabáticas, projeto da TV do Estadão.
Toda primeira semana do mês, tem autor novo.
Aliás, vale muito passar pelo site pra ver e ouvir as duas primeiras: Milton Hatoum e Lygia Fagundes Telles.

18/12/2010

Escada

J comme Joie:





07/12/2010

Recado

A editora Flâneur, recém nascida aqui no Rio de Janeiro, pediu a 22 autores brasileiros que escrevessem um conto em que o personagem principal fosse um escritor estrangeiro.

E assim eu, Carola Saavedra, Andréa del Fuego, Nelson de Oliveira, e outros tantos, nos reunimos com Jean Genet, Thomas Bernhard, Breton, Bolaño, Sylvia Plath... na antologia Escritores escritos.

O lançamento será dia 9/12, às 19h, no Espaço Cultural Maurice Valansi, em Botafogo.


22/10/2010

ETC.

Manuel Alvarez Bravo - Portrait of Eternal



Amigos,
Sumi, mas nem tanto assim.
Às sextas tem crônica nova aqui no Vida Breve!

Hoje, uma Psicografia íntima.

08/09/2010

Recado

Felipe Rodrigues


Bravos e memoriados amigos que ainda passam por aqui,

A partir de hoje estarei toda santa sexta no site Vida Breve com uma crônica inédita. E sempre muito bem acompanhada pelo ilustrador Felipe Rodrigues.

Editado por Luís Henrique Pellanda e Rogério Pereira, o Vida Breve traz uma dupla diária de colaboradores (cronista + ilustrador), e está aberto inclusive aos domingos, feriados e dias de jogo da Seleção, 24 horas por dia.

Pra saber mais e me ler hoje, é só ir até ali.


Abraços!

09/08/2010

Relicário




Sarah Moon

22/07/2010

ETC.


Em tempo ainda: Adaptação.
Cinema + literatura + conversa boa

23/06/2010

Caixa



E sábado teve texto inédito no caderno Sabático (um parque de diversões pra quem gosta de livros) do Estadão.

Trata-se de Jardin des Tuileries, conto integrante da antologia Escritores Escritos, que abre os trabalhos da editora Flâneur em meados de julho deste ano.
No livro, escritores estrangeiros mortos fazem as vezes de protagonistas ficcionais de Andrea del Fuego, Cristiane Lisboa, Henrique Rodrigues, Carola Saavedra, Victória Saramago e outros tantos.

Pelo meu Jardin des Tuileries, pode-se encontrar esse dramaturgo e escritor de força incomum chamado Jean Genet, em 15 de abril de 1986, seu último dia de vida.

Para ler, é só chegar aqui.

11/06/2010

01/06/2010

Janela


"Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.

Maiakovski por Rodchenko

Ressuscita-me,

nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
— Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que
doravante
a família
seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra."


O Amor - Maiakovski, 1923

19/05/2010

ETC.

Sarah Moon


"Viver é muito perigoso. Porque aprender a viver é que é o viver mesmo. Travessia perigosa, mas é a da vida... O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo é um saber definido do que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra."
Guimarães Rosa


[Fui até ali me arriscar um pouquinho e já volto.]

23/04/2010

Bilhete

Até o final da semana que vem estarei também ali no blog de Letras do Saraiva Conteúdo dando algumas notícias.
É só uma rápida cobertura pro amigo querido Ramon Mello, dono da casa, que está floating in a most peculiar way por aí e me pediu pra alimentar o gato e regar as plantas enquanto não volta.

E amanhã, 24 de abril, às 15h, estarei com outro amigo, o escritor João Paulo Cuenca, no Café Literário da Biblioteca Municipal Machado de Assis, em Botafogo - dentro da programação do Viradão Carioca. Com mediação de Juliana Krapp, vamos falar, entre outras coisas, sobre literatura na web. Ramon também estaria lá, se não estivesse em outra parte.

08/04/2010

Janela

Lee Friedlander


"Pavese cometia erros mais graves que os nossos. Porque os nossos erros eram gerados por impulso, imprudência, estupidez e candura; e os erros de Pavese, ao contrário, nasciam da prudência, da astúcia, do raciocínio e da inteligência. Nada é tão perigoso como essa espécie de erro. Podem ser mortais, como foram para ele, porque é difícil voltar pelos caminhos em que se errou por astúcia. Os erros que se cometem por astúcia envolvem-nos estreitamente: a astúcia finca em nós raízes mais profundas do que a irreflexão ou a imprudência: como se desprender desses laços tão tenazes, tão apertados, tão profundos? A prudência, o raciocínio, a astúcia têm o rosto da razão: o rosto, a voz amarga da razão, que argumenta com seus argumentos infalíveis, aos quais não há nada a responder, só a concordar."


N. Ginzburg - Léxico Familiar

04/04/2010

Janela




Le Mystère Picasso, de Henry-Georges Clouzot


02/04/2010

25/03/2010

ETC.



"Meu nome é Legião, porque somos muitos."


No próximo sábado, dia 27, Renato Russo faria 50 anos.
Nesse dia, 20 meninos e meninas de trinta e poucos que há duas décadas mudavam de voz, amargavam espinhas e as ressacas dos primeiros porres, enquanto tentavam cantar Faroeste Caboclo sem errar (mesmo sob os gritos de Abaixa esse volume!) estarão juntos num livro-homenagem à Legião Urbana.


Ex adolescentes confusos e espinhentos, como são os confusos espinhentos adolescentes em qualquer tempo, claro. Como primeira geração pós-ditadura, aprendemos a andar de bicicleta enquanto 100 mil marchavam pelas diretas. E se éramos jovens demais pra saber, a Legião foi logo nos contando sobre tudo. Gazetear as aulas de Educação Moral e Cívica pra ouvir Que País é este fazia parte das nossas pequenas subversões. No interior e em qualquer capital do Brasil - era só prestar atenção: por toda parte havia um vinil dos caras rodando no toca discos.


Como se não houvesse amanhã sai pela Record e reúne vinte autores de contos inspirados em músicas da Legião Urbana. É trabalho afetivo, amoroso como um presente de aniversário.

19/03/2010

ETC.



Já sei, você estava agora mesmo pensando que queria entender o teatro brasileiro!

Pois a primeira edição da Bravo! especial "Para entender" já está nas bancas! E com textos meus, da Débora Pinto, Dirceu Alves Jr. e Gabriela Mellão, ensaio da Barbara Heliodora, entrevista que fiz com Sérgio Britto e o ensaio visual da fotógrafa Lenise Pinheiro. A edição é do Marcelo Musa Cavalari e do Almir Freitas.

15/03/2010

ETC.

Ei, amigos!
No ano passado fui convidada pra fazer parte de três antologias de contos. Três projetos interessantes, mas coisa nova pra mim. Sempre me senti tão constista quanto pianista (toco só "cai cai balão"), mas foi, pra dizer o mínimo, divertido.
Agora calhou que duas delas serão lançadas cá no Rio em março.

O lançamento da primeira acontece nesta quarta-feira.
Em "10 Cariocas", dez escritores cariocas de nascimento ou por adoção (meu caso) escreveram histórias passadas, claro, no Rio de Janeiro.
A edição é bilíngue (português-espanhol) e foi lançada originalmente na Argentina no final de 2009.
O convite diz o resto.

Vejo vocês por lá?



03/03/2010

ETC.

Está no ar, lá no Saraiva Conteúdo, fragmentos da minha conversa com o querido Ramon Mello.
Vale dar um bom passeio pelas entrevistas do site - o projeto é realmente muito bem realizado.

Pra chegar ao Saraiva Conteúdo e ler a entrevista (mais ou menos) na íntegra, é só clicar aqui.

Para ouvir meu playlist, dê outro toque aqui.

02/03/2010

03/02/2010

ETC.



"Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo."

Fernando Pessoa


Lisboa, eu te amo


Acho que foi lá pelos 12 anos que abri o primeiro livro de poemas do Fernando Pessoa. Era uma capa amarela, me lembro bem. Já tinha ouvido com alguma curiosidade (numa fita cassete de um dos meus irmãos) algo sobre ser preciso navegar – mais que viver, navegar. Não sabia que Pessoa estava ali desde sempre.

Com doze anos não passava uma semana sem definhar por amores não correspondidos. E fazia questão de esmiuçar cada mágoa, escrevendo dúzias de cartas que nunca mandava. No dia em que abri o tal livro, e naquela semana inteira, o carreguei pra todos os lugares e me repeti mil vezes que todas as cartas de amor eram ridículas. Quando cheguei em Tabacaria, chorei rios. Era como se alguma coisa tivesse se movido em mim. De repente, me sentia diferente. E parecida com alguém.

Depois vieram Florbela Espanca e Cesário Verde.

Havia uma correspondência tão absurdamente significativa que logo se transfigurou em intimidade e me acompanhou pelos anos seguintes. Desde aquele tempo só cresceu essa ideia silenciosa de que havia algo pra mim (ou de mim) em Portugal. Na faculdade de comunicação, dei um jeito de pesquisar o Movimento de Orpheu e durante seis meses fui obcecada por Mário de Sá-Carneiro. Sempre que as coisas ficavam difíceis, secretamente tramava planos de fuga pra Lisboa. O último, se não me engano, tem menos de dois anos. Mas o fato é que o tempo foi passando e só conhecia Portugal dentro da minha cabeça.

Estranho é que nem nos delírios mais extremos (e eu posso ser delirante, sim), jamais cogitei publicar um livro na terra de Fernando e Florbela.

Até que aconteceu. Assim, como se fosse natural que acontecesse.

Durante a viagem de promoção do livro, eu... reconheci Portugal. Aquele mesmo lugar de dentro da minha cabeça. Nos demos bem, sem confusão, sem susto. Somos velhos amigos.

Digo isso tudo porque depois que a edição (tão bonita) da Editora Cotovia ficou pronta, em novembro, começaram a me chegar notícias sobre a recepção do romance. Além de questões e análises densas, sofisticadas, também textos belíssimos, delicados e sensíveis. Como o que a Ana Dias Ferreiras escreveu para a Time Out, e este, do poeta Pedro Mexia, publicado no suplemente Ípsilon, do jornal Público na última sexta-feira.

Não, eu não tenho nenhuma dúvida: existe mesmo algo pra mim (e de mim) em Portugal.

18/01/2010

Janela

Sarah Moon



"Porque morremos, urge nascer.
Porque somos finitos, existe em nós a vocação de arranhar o infinito com nossa insônia"

Hélio Pellegrino

04/01/2010

Caixa



Waldick



e, principalmente, não ligar a televisão. No ponto em que chegou o mundo, minha filha, é até difícil escolher entre notícia boa e ruim. Porque ou é se prender a fiapo de esperança, pra logo se atinar que tudo não passa de enchimento de lingüiça, que do jeito que essa cidade ferve nem o capeta agüenta, ou aceitar de vez que não tem saída pra lado nenhum. Como se diz hoje, tá tudo dominado, o mal tomou conta. Eu não. Vou é escutar o disco que o Armando tanto gostava. E olha que já não podia mais com aquele homem se esgoelando nos meus ouvidos todo santo sábado. Às vezes parece que fazia só pra me botar fogo nas idéias. Come uma rabanada, minha filha, come. Tão magra. O Armando parecia que queria me ver no destempero. Mulher braba, ele chamava assim sempre que me via passar pela sala encrespada com o tal do Waldick que ele tinha de ouvir todo bendito sábado depois do vinho do almoço. Só arriava o volume quando a viúva debaixo cutucava o teto com vontade. Nunca vi homem pra repetir o repetido que nem esse. Eia, mulher braba, venha cá, venha, me chamava bem assim o Armando, risonho, esticando o braço, já querendo safadeza. E eu respondia que tinha serviço na casa e passava reto. Cuida que queima os beiços, filha! Nunca me esqueci, minha falecida mãe, com ciência do afeto entre mim e meu noivo, me ensinou somente duas coisas na noite antes do casamento: que fizesse banho com velame do mato se ele chegasse com peste da rua, e que se não desse confiança pra homem encachaçado também nunca faltaria respeito em casa. Com o amor que vocês se têm, o resto todo se resolve, ela disse assim, me lembro como se fosse agora, prendendo uma cachopa de flor de laranjeira no alto da minha trança. Eu tinha um cabelo que caía pra baixo da cintura e o Armando reparava e ficava doente até se eu cortasse um nada nas pontas. Depois minha mãe nunca mais pronunciou palavra de intromissão na nossa vida. E a gente também foi pra estrada. E foi indo de um canto pra outro desse país, não parava. Só calhou parar e ficar aqui mesmo. Pega mais dois ovos ali na frigidaire pra vó, pega? Então eu passava reto pelo Armando se ele fazia aquela cara endemoniada depois do terceiro copo. Cruzava já amolecida já, é fato. Mais moça, até que ia e me sentava no colo dele, mas bocadinho e cheia de vergonha. Nem olhar nos olhos podia que me desgovernava e acabava fazendo coisa que não se deve à luz da tarde, com criança acordada dentro de casa. Depois ia prestar contas na confissão. Obrigada, filha. Não que fosse beata, somente me aliviava e era bom. Purgava o ocorrido, tomava a comunhão e voltava chispando, com umas saudades sem cabimento do Armando. Que a gente nunca passou mais que um turno afastados depois das bodas. E na missa, teu avô não ia nem arrastado. Só pisou em igreja no dia do nosso casamento. Depois, com muita má vontade, nos batizados dos filhos. E ainda jurava que, nas três vezes, botou a mão no bolso da calça e fez figa pro padre. Desconjuro! E tua mãe, será que chega na hora? A Zilda não quis se casar em religião nenhuma, e por mais que lhe rogasse, nem te batizar aceitou. Pobrezinha da minha neta. Puxou ao pai, a Zilda. E ainda foi se juntar com o marido no comunismo. Deus me livre eu abrir a boca pra falar de Cristo no meio da ceia com aqueles dois. Natal, pro Armando, era comilança, beberagem e motivo pra festa com a família. Mais não lhe pedisse. Mais canela, filha? O Zé Luiz, teu tio, coitado, nunca teve boca pra nada, só ouvia e comia. Ou nem ouvia, né? Mas o Armando e a Zildinha... Eu preferia enfeitar meu presépio, pedir perdão pela heresia dos dois, orar quieta no quartinho, do que entrar naquela celeuma sem cabimento. Pois tem cabimento dizer que Jesus tinha coisa com a Madalena?! O Espírito Santo que nos proteja, amém. Nunca fui de falar demasiado. Nem nunca fui notória em nada, não, diferente de vocês, mocinhas de hoje, que já nascem pra ganhar o mundo. Quem veio munido com o dom do discurso, falava garboso, era ele. O Armando. Nem gostei dele no começo, quando a gente se conheceu naquela quermesse da paróquia de Palmeirina. Mas o diabo do homem falou tanto, mas tanto... Aquele vendia até água benta pro anticristo! Só vou aprontar aqui a farofa e te levo pra ver o menino Jesus, tá, filha? A vó comprou mais seis ovelhinhas pro rebanho esse ano, que duas a rapariga que ajuda na faxina espatifou ano passado. Na cozinha eu me distraio e me destaco até. Agora menos, que o Armando não tá mais pra pedir a feijoada dele. Seis meses já, sem o Armando. E os filhos vejo tão pouco. E só querem ir pra restaurante. Vou pra não fazer desfeita, mas sinto falta do meu tempero. Feijoada, o Armando pedia completa até um dia antes de ir. Aí ficava rondando o fogão, dando palpite, bulindo nas panelas, e achava jeito de me bulir também até que eu enxotasse com coça de pano. E saía se rindo todo, o danado. Tem dias que parece que escuto a risada dele. Ah, às vezes me arrependo tanto do tempo que ficava na frente da televisão vendo novela. Mais horas que a gente podia ter ficado juntos, né? Assunto nunca faltou, e às vezes era bom só ficar assim, encostados na poltrona grande, se balançando, olhando pra fora, a ver coisa nenhuma. Uma paz que nem sei. A gente se distrai da vida se é feliz, e acha que a felicidade nunca acaba, menina. Queria era ter espremido mais a fruta. Eia que essa vida é curta! Você é que não sabe. Tá achando triste o Waldick? É triste mesmo. Por isso não me agradava que ele escutasse, porque a gente vivia só alegria aqui nessa casa e me doía imaginar aqueles dizeres do Waldick na boca do Armando. Venha cá, venha ver com a avó se o peru já botou o tal do prego pra fora. Era sempre ele que cuidava do peru da ceia, de modo que nunca aprendi. Mas não desses que a tua mãe trouxe, todo esturricado, com prego dentro pra avisar do assamento. Criava o bicho quase o ano inteiro, no terreno de um compadre. Aí sempre pegava afeição e se negava a comer da carne na noite de natal. Homem de coração assim, nunca conheci outro. Não tem namorado ainda não, tem? É nova, a cabritinha. Pois aproveite. Eu, na minha vida, só tive o Armando só. Mas tive foi muito. E digo, minha filha, ainda me faltou vida pra amar o tanto que podia, o safado do teu avô. Arre! tem vezes, assim, no calor do bafo das panelas, que parece que posso ouvir ele gritar ali da sala. Eia mulher braba, venha cá, venha,




(Waldick, escrito em dezembro de 2009 ao som de Waldick Soriano, foi publicado no dia 20/12 no suplemento especial de natal do jornal Estado de São Paulo)

22/12/2009

ETC.

Opa! Antes tarde do que nunca:
A lista do João Paulo Cuenca dos melhores lançamentos de 2009:

Pornopopéia, Reinaldo Moraes
A literatura em perigo, Tzevetan Todorov
Leite derramado, de Chico Buarque
Zazie no metrô, de Raymond Queneau
O filho da mãe, de Bernardo Carvalho
Outra vida, de Rodrigo Lacerda
Suíte dama da noite, de Manoela Sawitzki
A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz
A cabeça e a ilha, de André Dahmer
Clarice, de Benjamin Moser

Para acessar o vídeo da Globonews, clique aqui.

21/12/2009

ETC.

Frank Hovart


Então é natal?
Então é natal...

E Caderno 2 do Estadão publicou na edição de ontem um interessantíssimo caderno especial natalino. Não se preocupem: nada de Feliz natal e próspero ano novo, boas festas e hohohos.
Mas uma reunião de nove autores brasileiros, como Sérgio Sant'Anna, Ana Maria Machado, Nuno Ramos, Silviano Santiago e Marçal Aquino, que escreveram contos inéditos inspirados na data.

Para ler o meu conto Waldick, basta clicar aqui.

Boas festas e hohoho!

01/12/2009

ETC.

Doisneau

É o seguinte: palavra de escoteira que é o último convite literário que faço este ano (ok ok, eu sei que já estamos em dezembro...)

Hoje:


Oi Cabeça: Encontro Literário entre Heloísa Seixas (Uma ilha chamada livro, Contos Mínimos e outros) e Manoela Sawitzki (Suíte Dama da Noite).
Tema: Processo de Criação e as vozes femininas na literatura.
Quando: 1/12 às 19h30
Onde: Oi Futuro Ipanema - Rua Visconde de Pirajá, 54/ 3. andar

28/11/2009

ETC.

Vixe! os dias foram tão tão corridos essa semana que acabei me esquecendo de postar o convite aqui!
Mas agora, e mais tarde do que nunca, vai:

Hoje estarei com o amigo Arnaldo Bloch autografando e bebericando no Vira Cultura da Livraria Cultura Conjunto Nacional, em São Paulo.

Segue o convite e os abraços!


07/11/2009

ETC.


Eu passarinho!

Às vezes é assim: parece que a palavra não dá conta...
É assim, meio calada, que vôo pra fazer a promoção da edição portuguesa de Suíte Dama da Noite.

Quase calada (e me beliscando), mas saltitante, entro pro catálago da Coleção Sabiá, dessa editora pequena em tamanho e Grande em Tamanho, a Editora Cotovia. Nesse selo, que é dedicado à literatura brasileira contemporânea, agora sou vizinha de, entre outros, Raduan Nassar, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Adélia Prado e Sérgio Sant'anna.

Sob a batuta dos queridos e destemidos editores André Jorge e Fernanda Mira Barros, com orelha (ou melhor, badana) da talentosíssima escritora (além de linda amiga e duplamente vizinha - de Record e Cotovia) Tatiana Salem Levy: Portugal AQUI estamos!

31/10/2009

ETC.


E vamos que vamos!

No dia 4 de novembro, quarta-feira que vem, estarei na Feira do Livro de Porto Alegre.

Só sei que vai ser assim:

Padaria espiritual com Manoela Sawitzki e Altair Martins: Na parede escura, retratos de damas da noite

Tenda de Pasárgada - 18h

No “cardápio” (é o que diz a programação), estaremos eu e o Altair Martins falando sobre nossos últimos livros e o que mais calhar. E em seguida:

Sessão de autógrafos de Suíte Dama da Noite

Praça de Autógrafos – 20h30

Vejo os amigos gaúchos lá?!

10/10/2009

ETC.

Pois: eu e o Paulo Rodrigues estamos no Espaço Aberto Literatura da Globonews (com Edney Silvestre) dessa semana.
A estréia foi ontem, mas há reprises: Sábado 1h30, 8h30 e 16h30; Dom: 6h05 e Seg: 12h30

E a qualquer hora, clicando aqui no site da Globonews:

Espaço Aberto Literatura

26/09/2009

ETC.

Imagem de Viajo porque preciso, volto porque te amo,
de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz




O tempo faz arrastão e não há quem o segure. Leva com ele textos que sequer foram escritos e o Prelúdios vai se tornando um prelúdio de si mesmo. Não deixa de fazer sentido. E não me queixo.
Mas ando à procura de uma dessas pesquisas recém realizadas por qualquer universidade respeitável que prove que a culpa não é minha: é o tempo que passa mais depressa. Deve existir um cientista que assine embaixo e me absolva. Agradeço se alguém mandar notícias dele.
(meus sábados de menina com a boca tingida de sacolé de uva continham décadas)

Hoje só digo duas coisas. Primeiro: que vai demorar muito pra eu me recuperar da beleza de Viajo porque preciso, volto porque te amo. Sua existência é como um desses presentes que a gente não sabe como agradecer. Porque tudo parece pouco. Já ofereci flores, chocolates e um brilhante pro Marcelo Gomes. E é pouco.

Vou cruzar todos os dedos pra que o filme entre em cartaz e muita gente levante e saia da sala antes do fim, tamanho o desconforto e a perplexidade. E vou cruzar de novo e de novo e de novo pra que sejam muito mais numerosos os tocados enormemente, e pra que a perplexidade (essa que nos devolve pra vida quando estamos em outra parte) faça com que multidões continuem nas poltronas até o moço da faxina varrer seus pés.
Bóra pra Acapulco!

Segundo: o Luciano Trigo me entrevistou e agora está tudo lá (aqui) no Máquina de Escrever, sua coluna no portal G1.

19/09/2009

ETC.

Resenha do José Castello publicada hoje no Prosa & Verso do jornal O Globo:

15/09/2009

ETC.

Essa semana participo de dois encontros cá no Rio:

Grajaú, aí vamos nós!



Lapa, em excelentes companhias.

24/08/2009

Relicário

Manuel Alvarez Bravo, 1935 - Fire workers

"A sabedoria deve saber que traz em si uma contradição: é louco viver muito sabiamente. Devemos reconhecer que, na loucura que é o amor, há a sabedoria do amor.
O amor da sabedoria - ou filosofia - tem falta de amor. O importante, na vida, é o amor. Com todos os perigos que carrega.
Isto não é suficiente. Se o mal de que sofremos e fazemos sofrer é a incompreensão de outrem, a autojustificação, a mentira de si próprio (self-deception), então a via da ética - e é aí que introduzirei a sabedoria - está no esforço de compreensão e não na condenação - no auto-exame que comporta a autocrítica e que se esforça por reconhecer a mentira de si próprio."

Edgar Morin

17/08/2009

ETC.


Perdoem se ando monotemática, mas, definitivamente, não consigo evitar...

Na Zero Hora de 05 de agosto, Carlos André Moreira escreveu sobre Suíte Dama da Noite a belíssima resenha/reportagem:
"Uma paixão vivida à sombra".


EM BREVE: LANÇAMENTO NO RIO DE JANEIRO!

13/08/2009

ETC.

Mais Suíte.

Veja no Estúdio i, da Globonews, de hoje, comentário do João Paulo Cuenca sobre o livro.

Clique ali ou aqui.

02/08/2009

Relicário




Performance de teatro-dança de Biño Sauitzvy (meu irmão, meu amigo, meu orgulho) e Luciana Dariano.

ETC.

"O amor numa redoma distante do cotidiano":
É o título da resenha que Marcio Renato dos Santos escreveu sobre Suíte e foi publicada hoje no jornal Gazeta do Povo, do Paraná.
Para ler clique aqui.

E porque ando muito noticiosa, me desculpo dividindo Cecília, que há dias não me sai da cabeça:

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

Cecília Meireles

25/07/2009

ETC.

Madame Bovary de Claude Chabrol



Entrevista para o site da Editora Record
Por Dirceu Alves Jr.

Suíte Dama da Noite


O amor fadado a uma eterna espera sob a perspectiva feminina. Foi a partir desse foco intimista que a gaúcha Manoela Sawitzki, 31 anos, criou Suíte Dama da Noite, seu segundo romance. A protagonista é Júlia, uma mulher mal-resolvida que reencontra o amor de adolescência nos braços de outra e, pior ainda, às vésperas do casamento. Inspirada nas heroínas trágicas, Manoela construiu uma personagem que se aproxima daquelas eternizadas por autoras como Clarice Lispector e Lya Luft em uma obra que promete vida longa a sua escrita.


Como surgiu a idéia de Suíte Dama da Noite?

Primeiro veio da vontade de entender melhor a espera amorosa. Fala-se muito sobre o amor, como começa e acaba, mas aquilo que o precede, a espera, o hiato entre o desejo e a realização pode ser uma coisa brutal. Há um texto que li quando era menina que me impressionou... Fiquei tão tocada que não devolvia o livro à Biblioteca Pública e acabei convocada pela rádio da minha cidade a prestar contas. Era o discurso de Aristófanes sobre o amor, em O Banquete, do Platão. Peguei esse livro sem nem saber direito de que se tratava e achei tudo aborrecido até chegar nessa história. Aquele negócio de um todo dividido que se procura incessantemente, da condenação à incompletude, etc., me pôs às lágrimas. É a lógica dos contos de fadas. Toda criança que ouve ou lê essas histórias sobre mocinhas borralheiras ou adormecidas à espera do despertar, da salvação através de um príncipe acaba contaminada por essa lógica. Os meninos salvam e desposam, as meninas padecem e esperam, certo? O final feliz é condicionado pelo encontro. Estamos todos impregnados com essa sistemática – condenados por ela. Júlia, a personagem principal, é uma personificação da espera, da sensação de incompletude, do estado anterior à individuação.

Você tem experiências no teatro e no cinema. De que forma essas linguagens entram em sua literatura?

Primeiro veio a literatura, depois o teatro e o cinema. Mas desde criança me interesso muito pelos três, ainda que tenha crescido em Santo Ângelo, uma cidade de interior onde havia pouco acesso a qualquer um. Só que eu vivia atrás de leituras e lia o que aparecia, criei um grupo de teatro na escola e assim fazíamos nossas próprias peças, descobria VHS empoeirados numa locadora. Mas a literatura foi o que eu levei a sério mais cedo. A primeira peça que escrevi, lá por 2004, era muito literária. Só quando ouvi a tal primeira peça encenada, fui entendendo que precisava deixar espaço para a ação, que um silêncio pode ser mais precioso que uma frase bem escrita. Em cinema, só o que fiz foi escrever o roteiro de um longa com o cineasta Rodrigo John, mas o projeto ainda é embrionário. Essa experiência só reforçou o que já estava entendendo e aprendendo com o exercício de escrever peças: querer ser menos barroca, mais sutil.

Como começou sua ligação com a literatura? Esse é o segundo romance, certo?


Começou quando eu tinha quatro, cinco anos. Infernizava minhas irmãs para que me ensinassem a ler e a escrever porque... não sei bem, porque eu precisava. Simples assim. Desde cedo gostava de ler de tudo e adorava inventar histórias também. Às vezes acabava até sendo um pouco mentirosa, mas tinha inocência nessas mentiras, era um jeito de ficcionalizar a vida quando ela não podia me satisfazer. Aos poucos fui fazendo a passagem da mentira pra ficção. Escrevia poeminhas que publicava num jornal da cidade, declamava na escola nos eventos especiais, roteiros de peças, tentativas de contos e novelas, até que lá pelos 24 anos tive o Nuvens de Magalhães, meu primeiro romance, publicado pela Mercado Aberto, editora de Porto Alegre.

Júlia traz todos os elementos de uma heroína trágica. Você inspirou-se em outras personagens para criá-la?


A vida é trágica, não é? A vida carrega a morte, o começo carrega o fim, toda coisa tem esse avesso irremediável. Heroínas românticas (e trágicas) como Madame Bovary, Dama das Camélias, Isolda, Julieta, Ofélia, Madame Butterfly fazem parte do imaginário universal. Júlia tem um pouco de cada uma delas, embora apresente algo que talvez seja um tanto distinto: apesar de ser movida pela paixão, ela consegue realmente ser ardilosa, cerebral, até friamente objetiva na tentativa de realizar o seu desejo. Ela é racional mesmo na sua irracionalidade, ainda que pague um preço alto internamente. A Júlia sabe mentir.

A literatura brasileira tem tradição de grandes escritoras, como Clarice Lispector, por exemplo, que retratam mulheres fortes. Você acha que hoje essas personagens fortes estão menos comuns e as suas contemporâneas se preocupam mais com as tramas, com a ação?


Pra ser franca, ainda não consegui ler a maior parte das minhas contemporâneas, então não posso ter uma noção nítida de um todo. Li vários escritores da minha geração pela primeira vez de dois anos pra cá. Mas senti uma afinidade tremenda com a personagem e a escrita da Tatiana Salem Levy em A Chave de Casa. Arrisco dizer que a gente vive uma época factual demais, o tempo nunca foi tão esmagador, a velocidade que liga o fato à informação é vertiginosa. É muito difícil o sujeito se achar no meio desse redemoinho, acabamos todos escravizados pelos fatos, pelas nossas pequenas tramas, pela imensa trama global. Nossa época é movida pela ansiedade porque é muito pautada pela idéia de resultado, de consumo, de mercado. Um ansioso tem pressa e quem tem pressa demais não consegue se elaborar nem elaborar o mundo à sua volta.

Suíte Dama da Noite é um romance de poucos personagens. Você consegue imaginá-lo no palco?


Nunca pensei, mas consigo imaginá-lo num filme. São poucos personagens porque se trata de uma história parcial: só cabe nesse enredo o que interessa à Júlia. O narrador a conhece bem, mas só é capaz de enxergar aquilo que ela também vê. Quanto a mim, fazer esse corte vertical, me aprofundar nesse personagem mais que em qualquer outro, foi uma decisão. Eu gosto de trabalhar com poucos personagens. Prefiro assim a correr o risco de não dar conta. Mas estou me arriscando mais em Bons Meninos, romance que comecei a escrever no ano passado. Lá são três personagens principais, cada um com seu próprio núcleo pessoal, mais os cruzamentos entre eles e pelo menos três narrativas diferentes. Sem contar que agora são três personagens masculinos no centro do enredo.

É mais confortável falar sobre uma mulher por ser obviamente um território conhecido?

Uma mulher pode falar de outra e continuar falando de si. O mesmo vale entre homens, claro. É mais fácil, sim, ainda que nem sempre seja confortável, falar de si ou daquilo que se assemelha, que converge. Difícil é abandonar-se pra se colocar no lugar do outro. É fácil supor, pressupor, chutar, julgar verticalmente na ilusão e na pretensão de ser um entendedor da alma humana. Num momento da história, Júlia diz pro Klaus que “ninguém sabe nada assim tão irrevogável sobre o outro”. Concordo com ela, seja esse outro homem ou mulher. Acho a psicologia masculina tão desafiadora quanto a feminina. Cada história que escrevi foi um passo, cada passo uma tentativa de entendimento. Escrever dá essa possibilidade maravilhosa de se colocar num papel diferente, de ser muitos e voltar a ser um com um repertório mais amplo. Enfim, me interessa o que me é estranho e incompreensível. Não fosse pelo desafio, não seria tão prazeroso.

O livro traz uma visão pessimista do amor, não?


Eu diria que o livro traz uma visão realista sobre os equívocos que cometemos e que, por descuido ou desconhecimento, gostamos de chamar de amor. No fundo, não é nele que fracassamos e sim na sua tentativa. Não acredito que exista fracasso no amor: o sentimento amoroso está acima da nossa noção de êxito ou derrota. O amor é a vitória absoluta. Na verdade, tenho uma visão ultra otimista sobre o assunto: pra mim o amor é insuperável, indestrutível. Eu tenho escrito muito sobre o equívoco, o erro, sim, mas isso porque a inspiração, a motivação pra escrever vem da vida, e a vida está repleta de erros e equívocos. Quanto ao livro: além dos lances equivocados, há o amor da Júlia e do pai, de Cândida pelo cunhado. O amor realizado está ali também.

A tentativa de redenção da personagem pode ser uma tentativa de compensação por sua vida tão dura?

Eu cheguei a cogitar finais escabrosos pra Júlia, mas eles não encaixavam. Um dia as tais cenas finais vieram e me fulminaram. Não sei se dá pra chamar aquilo de redenção, gostaria que sim, porque torço pela Júlia, como torço por mim e por muita gente ao meu redor que está procurando respostas, que tenta encontrar um sentido. Não dá pra falar muito no final sem estragar a surpresa que ele traz. Eu fiquei muito surpresa quando entendi que só poderia ser daquele jeito.

*

Suíte Dama da Noite está na seleção Bravo!
dos melhores lançamentos de julho.



06/07/2009

ETC.


NAS LIVRARIAS!


"(...) Que olhar espera Júlia? Que arrebatadora ternura? “Um porto onde pudesse atracar era a engrenagem que mantinha Júlia Capovilla na linha da vida cotidiana.” Mas o que é a segurança senão um cais efémero, fugidío? Quebrando amarras para depois se reencontrar, questionando a vida pelo lado de dentro, Júlia vai juntando duas palavras no milagre de uma só: a vida, o amor...

Manoela Sawitzki inscreve assim, na literatura contemporânea brasileira, um poderoso retrato das querenças, relações e contradições humanas, partindo do olho de um oculto furacão chamado Júlia Capovilla."

Ondjaki


06/06/2009

Relicário

Sarah Moon



"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida"
Caio Fernando Abreu, em 1986.

30/05/2009

ETC.

Bruno Kurru


Está chegando a hora.

Vá até a saideira da revista Bravo! de junho e encontre este trecho inédito de Suíte Dama da Noite, meu romance que chega às livrarias no finalzinho do mês.
Ilustrações do Bruno Kurru.

13/05/2009

ETC.

John Gutmann

E por falar em prelúdios, daqui a pouco venho contar que Suíte Dama da Noite, meu segundo romance, sai pela editora Record, lá pela virada de junho pra julho.

Enquanto o segundo não chega, o terceiro dá os primeiros sinais de vida (tenho televisão em casa, sim, senhor). Pra quem é chegado numa ecografia, a partir de hoje tem trecho inédito de Bons Meninos, o terceiro da prole, lá no
Prosa Online.



02/05/2009

ETC.




Olha o peixe fresco!

Na Bravo! de maio (que traz uma conversa imperdível de Armando Antenore com Fernanda Montenegro), falo sobre as peças Viver sem tempos mortos e In on It.

29/04/2009

23/04/2009

Caixa

Sarah Moon


Carta ao Samir

Releio umas das tuas últimas mensagens. Uma mensagem curta em linhas, mas imensa em alcance. Releio de novo e agora já é outra. Já foi muitas, meu amigo. Aqui também respiro fundo. Transporto tudo o que é a minha vida hoje pra sacada – os livros, o bloco e a caneta, a xícara de café (minha caixa de brinquedos) – estendo a rede, deixo o laptop, os cigarros e o cinzeiro ao alcance, ainda que não precise deles. Decido te escrever primeiro com papel e caneta, ainda que o pulso estranhe o movimento, ainda que dê o dobro de trabalho e cada vez mais estranhe a letra. Também olho a paisagem e aqui ela é de uma beleza monstruosa, que se impõe e confronta os olhos. Uma amiga, quando me visita, diz que tem medo da desproporção desta pedra (a noite o morro parece a sombra de um gigante) e sempre se senta de costas pra ela. Acho graça. Olho (meio afrontativa) pro morro e tento repetir teu gesto, mas é preciso então ousar o contrário: entrevistar o feio por trás do belo. O que é mais difícil?

Conversar mais detidamente? Que alívio encontrar entre as tuas palavras a explicação pro descaramento da minha ausência. Será que te alertei antes que isso me acontece? Que sumo mesmo e depois fico com cara de pamonha sem saber como pedir tantas desculpas? Sim, porque você não é o único que fica sem notícias, e elas, as desculpas, ainda precisam de certa especificidade – no fundo, esse tipo de desculpas é mais uma demanda dos outros, não? É que comigo já acertei as contas: as coisas ficam mais simples quando a gente assume a própria loucura, não tenta ser querido e compreensível o tempo inteiro. Juro que tentei muito e por isso sei que quase não compensa, que pequenas deselegâncias com o mundo evitam grandes injustiças com a gente mesmo.

Ouvir com mais atenção? Quando isso é possível, quando o barulho (o de fora e o dentro) não consome todo o detalhe, aí a gente entende como ouve pouco e como ouvir pode ser bom. Sobretudo (eu tenho pensado tanto sobre isso) como aprendizagem. Me refiro, é claro, não a tudo que é dito, mas à necessidade de também aprender a não dizer de vez em quando. Aprender com a falta de auto-censura do outro a não ter tanta necessidade de dizer. E veja você que quem escreve agora não o faz enquanto monja sereníssima e meditativa sob a figueira milenar. Só eu sei o quanto não dizer me pesa. Muitas vezes preciso me amordaçar e me trancar numa sela incomunicável pra modo de não ceder a qualquer impulso besta de arrombar o ouvido alheio.

Não, a gente não pode mesmo deter o tempo. E que alívio! Porque se pudéssemos, acho que perderíamos mais. Acompanhá-lo, como você disse, talvez seja a grande sabedoria. Se retirar dele, um exercício e tanto. Mas quando você fala sobre a eternidade, confesso que paro tudo, me esforço, mas não tenho conseguido sequer captar a ideia. O que é que ainda pode ser eterno? Queria que alguém me pegasse pela mão e me mostrasse, porque quase tudo o que vejo ao redor me parece perecível e frágil, a intensidade saiu de moda, percebeu?!, e não consigo conceber uma eternidade morna, frouxa (sou eu aquele elefante na sala dos cristais). Por isso, no lugar da eternidade, é o instante o que mais me assombra ultimamente: esses milhões de partículas de momentos perdidos, frações que morrem intocadas. Sei que uma vida de intensidades sem trégua nos mataria de cansaço na primeira esquina, que também é ótimo dormir, ver televisão, beber chopes e assistir filmes do Monty Python, acontece que... não sei, certas porções da vida deveriam ser consumidas com gula, sem pudor, menos travas, mais entrega.

Ou será que tou misturando as receitas? Correndo o tal risco que você mencionou: do aniquilamento da memória?!

Talvez seja só isso mesmo. E no fim a gente precisa é ser maior que a própria memória pra que a vida se realize, siga, pra que novas memórias sejam erguidas, outras linhas escritas e os ciclos se completem.

Largo o bloco, fico algum tempo sem escrever, me balanço na rede e também tomo meu café aos poucos. Quase me sinto calma quando um pássaro preto, enorme, entra na mata a toda velocidade e faz um barulho danado lá dentro. Sem pensar direito, deixo a xícara de lado e pego, meio urgente, o bloco pra escrever alguma coisa que sei que não faz parte da carta pra você: “Não sei dizer quais eram os pássaros, nem se poderia haver lobos soltos no pátio àquela altura do dia. Não posso mais me fiar na certeza, creia, porque o tempo há de decretar outras normas. Nem juiz de concretas ciências, nem leigo que se sujeita a presságios: do hoje apenas esta neblina, breves passos, paradas. E horas que passam à revelia do que foi deixado.”

E é tudo. Talvez uma nota pro romance novo. Talvez uma mostra da eternidade que você menciona.

Volto à tua mensagem e me detenho na última linha: “Então deixo de repetir o passado. Então o novo pode vir.”

Você estava falando sobre mim ou sobre você?!

Com meu carinho, sempre,

M.


18/04/2009

Escada

The time lapse



12/04/2009

02/04/2009

27/03/2009

Escada

Sarah Moon


“A minha fé toma o exemplo na de Pascal: respondo à incerteza e à contradição pela aposta. A fé improvável em Deus transformou-se para mim na fé improvável num mundo menos bárbaro, numa inteligência menos cega e na fé imperturbável na verdade do amor. Nunca consegui encerrar-me numa fé. A minha fé sempre conservou em si a dúvida. Nunca consegui acreditar como a maioria acredita, nem mesmo quando estava sob o impulso messiânico da minha resistência de guerra (e a dúvida veio rapidamente corroer a crença). Mas nunca consegui encerrar-me na dúvida, e a minha dúvida sempre conservou em si a fé.

O meu problema foi sempre o de salvar a tolerância no interior da fé (a esperança), salvar a fé (a esperança) no interior da tolerância. (...) O meu misticismo, que surgiu como emoção perante o mistério das coisas, manifesta-se repentinamente ao olhar um escaravelho, um gato, uma margarida, um rosto. Manifesta-se na experiência do êxtase, da embriaguez, da poesia, da música. Concentra-se no Amor.

Continuo a sentir a esperança messiânica de uma redenção num outro mundo. Mas este messianismo está recoberto, virtualizado, contido. A Grande Promessa está morta: “Armados com uma paciência ardente, entraremos nas esplêndidas cidades!”. E é pelo mesmo Rimbaud que me vejo “atirado por terra, com um dever para procurar e a rugosa realidade para abraçar”. Perdi a Grande Promessa, mas não perdi a esperança. (...)

Assim, mais do que nunca e plenamente, vivo, experimento e alimento-me com a permanente dialógica entre fé e ceticismo, misticismo e racionalismo. O trabalho nas contradições continua. Eis a sua conseqüência existencial: Viver no duelo dos contrários, quer dizer, nem na duplicidade sem consciência nem no “justo meio”, mas na medida e na desmedida; não na morna resignação, mas na esperança e no desespero, não num vago tédio ou num vago interesse perante a vida, mas no horror e no maravilhamento.”


...mais de Edgar Morin, em Os meus demônios

23/03/2009

Escada

Sophie Calle


"Quem sou eu? A minha singularidade se dissolve quando a examino e, por fim, fico convencido de que a minha singularidade vem de uma ausência de singularidade. Tenho mesmo em mim algo de mimético que me impele a ser como os outros. Na Itália sinto-me italiano e gostaria que os italianos me sentissem como participante na sua italianidade. Outro dia, ao falar a um auditório da Champanha senti-me champanhizado. Ah sim, gostaria de ser como eles. Adoro ser integrado e, contudo, não sou inteiramente de uns e dos outros. Poderia ser de todo o lado, mas nem por isso me sinto de alguma parte, estou enraizado assim.

Não é o exercício de um talento singular nem a posse de uma admirável verdade que me distinguem. Se me distingo é pelo uso não inibido ou cristalizado de uma máquina cerebral comum e pela minha preocupação permanente em obedecer às regras primeiras desta máquina cognitiva: ligar todo o conhecimento separado, contextualizá-lo, situar todas as verdades parciais no conjunto de que fazem parte."

Edgar Morin – Meus demônios (ed. Bertrand Brasil)

16/03/2009

27/02/2009

Janela

Sophie Calle


Da (im)possibilidade do amor

IV

Quer saber? Eu descobri o medo antes de conhecer você. Era inverno. E outono. E primavera. Verão às vezes. Era dia, tarde, noite, madrugada: o tempo se esgueira fora enquanto o encanto se desfaz dentro. É quando o medo arromba a porta e se instala. Quando sob cada nova camada de tinta se revela o mesmo quadro mal pintado. Quando a beleza borra e acaba a certeza do belo.
O tempo passará, a conclusão seria essa. E “nunca mais” seriam jurados em vão até que a eternidade secasse a saliva. Havia um plano. Quem negaria?
Então você abriu o portão numa noite de chuva. Num domingo como tantos. Noite, chuva, o táxi me deixando na rua vazia. Eu já conhecia o medo antes de você girar a chave e me deixar entrar no edifício. E eu não te conhecia.
Talvez tenha mesmo evitado. É verdade que adiei o reencontro. Talvez fosse um novo hábito isso de evitar e adiar, como muitos. Talvez fosse a força dos dias, tardes, noites e madrugadas exclusivos, do medo passando férias em Acapulco, das batidas compassadas, dos passos firmes. Mas sorri quando teu nome surgiu entre os outros na tela. De mim, sorrisos contidos, disfarces? De ti, respostas ágeis, coincidências. Apenas pequenos esforços pra prolongar o contato, talvez. Talvez velhos truques, apenas.
Quer saber? De repente eu quase não podia explicar. Se foi a lua cheia que se exibiu entre árvores sobre a nossa mesa, se foi teu jeito de dizer tão convicto cada coisa. Se foi meu esforço de dobrar tua certeza. A bebida. O branco nas paredes. A vista da janela. O áspero dos teus dedos no meu rosto liso. Se foi o gosto da boca ou os risos que vinham dela. Não sei se foram as horas as horas as horas sem conseguir sair de um quarto claro e vazio de mundo, sem poder separar as minhas pernas das tuas pernas. Se a imposição do teu jeito, às vezes vago, às vezes límpido. As conversas possíveis, o impossível no entorno, o desejo contínuo. Se te ver dançar na avenida. Se foram os abraços ao acordar. O que é, o que pode ser.
Eu não sei por que fiquei, fui ficando, apesar do medo que descobri muito antes de você girar a chave e me convidar pra entrar. Porque havia um plano. Quem negaria?



16/02/2009

Janela

Sarah Moon


Da (im)possibilidade do amor


III

Ele disse musculação. Ela, Tai chi.

Ela pensou, então era isso, vou pedir um prato rápido, dizer que preciso acordar cedo, que tenho tanto trabalho, que o trabalho está me enlouquecendo, vou ser convincente e gentil.

Ele pediu picanha. Ela, creme de aspargos.

Ficaria com fome, sentiria o cheiro da carne e salivaria em silêncio, sorvendo seu caldo esquálido com cara de quem nunca provou outro melhor. Em casa? Tinha frios, duas fatias de pão preto, margarina: faria um sanduíche seco e, se chegasse até às dez, embora fosse otimismo seu, pegaria Veludo Azul começando na tevê. Abriria um vinho.

Ela disse Veludo Azul. Ele, Coração Valente.

Ela admitiu que, apesar do gosto massificado, havia um herói romântico em potencial do outro lado da mesa. Ele confessou que já tinha tentado, que detestava filmes confusos, personagens obscuros, tramas impossíveis.

E O Último dos Moicanos?
Ele vibrou, vibrou mesmo: os olhos se acenderam, um sorriso largo emoldurou cada palavra entusiasta sobre Daniel Day-Lewis. Puta ator, puta ator! E seu rosto ganhou cores que ela ainda não tinha visto. Tão bonito...

Ela suspendeu o suco de tangerina e pediu vinho. Ele acompanhou.
E ofereceu uma prova do seu prato. Ela experimentou um conforto estranho. Aceitou.
Uma garrafa e meia e um macarrão à putanesca depois, ela dizia Baudelaire, ele respondia Vinícius. Ela argumentava Guimarães Rosa, Borges, Cortazar, Camus, ele exaltava Stephen King. Eles se encontraram em O Iluminado e se dividiram em Carrie, a Estranha. E riram de cada discordância e dividiram o brownie com sorvete. E pegaram o mesmo táxi.

Ela disse Jardim Botânico. Ele, também.

E subiram a mesma escada. E não tomaram café nenhum. E riram do pretexto bobo. E arrancaram roupas com pressa. E se beijaram demorados e loucos sobre as almofadas.
Há tanto tempo que não se falavam, que se conheciam demasiado, que deixaram de fazer perguntas, que adivinharam respostas em refeições silenciosas.

Ela gostou dos seus braços mais fortes. Ele elogiou sua nova calma e a cor do seu vestido.
Ele foi embora de manhã bem cedo. E voltou à noite, carregado de malas.


12/02/2009

Janela

Yves Klein, Saut dans le vide



Da (im)possibilidade do amor

II


É que eu preciso te dizer que. Me fazer entender. Você entende? Há dois meses me expresso por esboços, pequenos gestos incompletos, porque. É assim. Está assim. Nem sempre me repito, se é que você imagina que. Mas contigo... Frases interditadas que, sem graça, corto com beijos pelo teu corpo. Ou nem isso. Beijo seco, quase ríspido, de boca fechada, lábios rígidos contra lábios líquidos. Porque às vezes te detesto por me fazer querer dizer qualquer coisa que nem sei ao certo se sinto. Ou se vou continuar sentindo em dois minutos, dois anos. Às vezes te detesto por me fazer ter vontade de dizer que te amo pra sempre. E você nem cobra, não investiga. Digo, não ouço tua voz me perguntando nítida o que, como, quando e por quanto tempo. Mas leio a dúvida no passeio das tuas mãos pelo meu rosto, no estalar da tua boca contra meu peito, nos teus olhares para o teto, para a lua, para a gaivota. Então fazemos silêncio e fingimos que somos cúmplices nisso enquanto nossas espadas se chocam sobre a cama. Te detesto quando sei que me tirou de um ponto de equilíbrio. Quando procuro a imagem que você enquadra na rua. Quando tenho medo de te perder por pouco ou por muito. Quando sei que não sou capaz de ser tão bom quanto decerto você imaginou no instante em que te despertei o interesse. Quando não sei o que você imaginou. E imagina.

É que preciso te dizer que talvez eu nunca consiga. Te contar que a curva do teu ombro me emociona. Que o som da tua voz me tranquiliza. Que preciso que ouça os detalhes do meu dia. Que não preciso de ti, mas te desejo intermitente, como dado imprescindível e como luxo dispensável. Que às vezes te adoro por cinco ou seis horas contínuas. E às vezes te esqueço, como forma desconhecida.

É que não posso dizer e pagar por isso na próxima esquina. É que você pode entender o contrário. É que posso repensar o contrário. E voltar atrás. E você pode não estar mais no ponto de partida. É que tenho medo, muito medo de te amar. É que tenho medo, muito medo de não saber amar.